LitPro Talks

Entrevista com Guilherme Bragov

Pensa em morar na Lituânia?

Veja a experiência do brasileiro Guilherme Bragov

Por Janete Jakatanvisky – Diretoria LitPro

Convidamos Guilherme Bragov – conhecido pelos amigos como Guilherme Bill – para compartilhar sua experiência de vida na Lituânia, uma relação que começou muito antes da sua primeira viagem ao país. Nascido na Vila Zelina, tradicional bairro lituano de São Paulo, ele não é descendente de lituanos, mas desde jovem esteve ligado à comunidade, participando dos grupos Palanga, Nemunas e da Jaunimo Sąjunga.

Em 2009, decidiu deixar o bairro para estudar o idioma na Universidade de Vilnius:

“Depois de ficar aqui quase um ano foi preciso voltar para o Brasil e retribuir um pouco daquilo que eu havia aprendido. Mas eu sempre quis voltar. Um ano foi muito pouco para conhecer tudo”, relembra.

Um novo começo em 2019

Dez anos depois, em 2019, Guilherme decidiu dar um novo rumo à vida. “Eu estava profissionalmente insatisfeito e precisava de algo novo. Eu queria vir para a Europa. Como ponto de partida, nada melhor do que começar por onde eu já conhecia.”

Com cidadania portuguesa, desembarcou em Vilnius, sem saber se ficaria, mas percebeu que havia encontrado o seu lugar:

“Foi como estar em casa. Bastaram algumas semanas para eu ver que as possibilidades aqui eram melhores do que buscar algo incerto num destino diferente. Logo fui contratado e, em setembro, já estava bem estabelecido. Para quem está acostumado ao Brasil, aqui tudo parece mais fácil e organizado.”

A vida em Vilnius

Guilherme descreve a capital lituana como “única”: uma cidade que combina história, natureza e segurança.

“Há muitos parques, as ruas são limpas, o trânsito não é tão intenso e são raros os casos de violência. É seguro andar a pé ou de bicicleta. As pessoas nem andam com pressa, pelo menos enquanto a temperatura estiver positiva”, brinca.

Para ele, o segredo está no equilíbrio: “A qualidade de vida compensa o custo mais alto, o frio e todas as diferenças.”

Enfrentando o inverno, o idioma e as incertezas

Sobre os desafios mais comentados, como o inverno, o idioma e a ameaça de conflito, Guilherme trata com naturalidade:

“Com o frio a gente aprende a lidar. O verdadeiro choque é com a escuridão. De novembro a fevereiro os dias são curtos e praticamente não se vê a luz do sol. Isso afeta o humor e deixa as pessoas mais reclusas. É preciso viver um inverno inteiro para saber se a Lituânia é para você. Mas a recompensa vem depois.”

O idioma, por outro lado, não foi obstáculo:

“Como eu já tinha morado aqui, estava habituado. Vilnius e Kaunas são bem acessíveis aos estrangeiros, e é comum que as pessoas falem inglês, principalmente os mais jovens. Mas falar lituano abre muitas portas. Os lituanos valorizam muito quem faz esse esforço.”

Sobre a questão da segurança regional, ele avalia com serenidade:

“Eu busco enxergar as ameaças de um possível conflito de maneira lógica. O tempo está mais a favor da Europa e a Lituânia está mais bem preparada. Quando se deu o início da invasão à Ucrânia, em 2022, a Europa não dispunha dos mesmos recursos de hoje, e muito se aprendeu com o conflito.”

Ele destaca que o país aumentou os investimentos em defesa e conta com a proteção da OTAN, incluindo tropas da Alemanha, EUA e Polônia, além de apoio aéreo rotativo. Civis também recebem treinamento pela Šaulių Sąjunga. A adesão recente da Finlândia e da Suécia à Aliança torna uma invasão menos provável.

Mesmo assim, há planos de contingência: “A todos os residentes de Vilnius é recomendado ter um estoque de água e comida em casa, além de uma mochila para emergências. A preparação ajuda a nos sentirmos mais seguros.”

Diferenças culturais e adaptação

Nem tudo foi simples no início:

“Aqui não existe o ‘jeitinho’. Não espere muita simpatia de garçons ou comerciantes. Para nós, brasileiros, ser bem atendido parece algo natural. Os lituanos não ligam muito para isso. Não que eles sejam rudes. Muitos estão ali temporariamente.”

E a burocracia pode ser desafiadora: entender documentos, o sistema de saúde, impostos… tudo é diferente.

Mercado de trabalho

Ele destaca que o mercado de trabalho oferece boas oportunidades:

“Vilnius e Kaunas concentram a maior parte das empresas multinacionais, que aqui instalam os seus service hubs. A maioria deles atende as áreas de TI, setores financeiro e de recursos humanos. Klaipėda tem suas atividades mais ligadas ao setor logístico-portuário ou à importação e exportação.”

Ao avaliar uma proposta, é importante conhecer a realidade local:

“Aqui não existe nem o décimo terceiro salário, nem o vale-refeição. Em geral, o único benefício oferecido pelas empresas é o plano de saúde. Outra situação que impacta o orçamento doméstico é o aquecimento. Nos meses em que ele fica ligado, o aumento nas despesas pode chegar a 30%, dependendo da intensidade do inverno.”

Ainda sobre o mercado de trabalho, destaca que o idioma “inglês é indispensável. Alemão e idiomas escandinavos podem ser um diferencial. Francês, espanhol e outras línguas da União Europeia podem ajudar, mas são bem menos requisitadas.”

Conselhos para quem pensa em se mudar para a Lituânia

Guilherme destaca a importância do idioma na adaptação:

“Quem pensa em vir para cá deve considerar investir em um curso de lituano. Por meio da cultura e do idioma, torna-se mais fácil compreender a maneira como se vive aqui.”

Ele também recomenda chegar no verão, manter expectativas realistas e preparar-se pessoal e financeiramente:

“Falar lituano contribuiu, é claro. Mas o fato de eu saber como eram as coisas e procurar me manter em contato com a Lituânia, mesmo quando ainda morava no Brasil, fez com que eu chegasse aqui muito mais confortável.”

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Sobre a autora: Janete Jakatanvisky é Diretora Operacional do LitPro. Administradora e consultora organizacional, tem se dedicado a atividades culturais junto à comunidade lituana. Autora do livro Alma Lituana: terras e cores de uma terra distante, é responsável pela publicação dos livros de seu pai Jonas Jakatanvisky sobre a imigração lituana, entre outros. Contato: janetejak1@gmail.com.

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