Por Janete Jakatanvisky
Na madrugada de 13 de janeiro de 1991, uma multidão de lituanos civis desarmados enfrentou algo além do rígido inverno báltico: tropas e blindados soviéticos que avançavam para retomar o Parlamento e para ocupar a sede da rádio e da televisão de Vilnius. Naquele dia, 14 civis lituanos, com idades entre 17 e 53 anos, foram mortos, atingidos por balas ou esmagados por tanques, e centenas ficaram feridos.
O ataque ocorreu em um contexto de forte tensão política. A União Soviética não reconhecia a independência da Lituânia, autodeclarada no ano anterior, em 11 de março de 1990, e vinha pressionando o país por meio de sanções econômicas e outras retaliações. Em 8 de janeiro de 1991, manifestantes pró-soviéticos tentaram invadir e retomar o Parlamento, mas foram contidos. Uma multidão pró-independência montou barricadas e se revezava em vigília, junto a fogueiras improvisadas. Outros traziam alimentos e cobertores. Dois dias depois, Moscou enviou um ultimato exigindo o restabelecimento da república soviética, prontamente rejeitado pelas autoridades lituanas.
Multidão cerca um tanque da URSS perto da torre de TV de Vilnius. Gintautas Gadliauskas, Museu da Grande Guerra de Vytautas, via Limis. https://www.limis.lt/valuables/e/805446/190000056204271…
A resposta militar foi rápida e violenta. Tropas e blindados soviéticos avançaram sobre Vilnius, mas encontraram a resistência pacífica de milhares de lituanos em torno do Parlamento e da Torre de TV. O Parlamento foi protegido, mas a torre, que transmitia ao vivo a movimentação das tropas e a própria invasão, acabou sendo tomada na madrugada do dia 13.
Durante o confronto, civis tentaram bloquear a passagem dos blindados e foram alvejados por disparos e explosões. Quatorze pessoas morreram e centenas ficaram feridas. Ainda assim, as informações sobre o ataque conseguiram ser transmitidas pela rádio e televisão de Kaunas, alcançando a imprensa internacional e mobilizando a opinião pública mundial.
Próximo ao Palácio do Conselho Supremo. Após a noite de 13 de janeiro de 1991.Autor: Alvydas Lukys. Coleção União Lituana de Fotógrafos, via Limis.
A pressão soviética não cessou de imediato, mas os acontecimentos de janeiro de 1991 tornaram-se um marco da coragem e da solidariedade do povo lituano em defesa da liberdade. A Torre de TV e outros edifícios ocupados seriam desocupados em 22 de agosto de 1991, após a fracassada tentativa de golpe em Moscou. Pouco depois, em 17 de setembro de 1991, a Lituânia passou a integrar oficialmente as Nações Unidas.
Janeiro em Vilnius. Na torre de televisão. Do ciclo “Sąjūdis”. Autor: Marijonas Baranauskas. Coleção União Lituana de Fotógrafos, via Limis.
Todos os anos, lituanos em todo o mundo lembram o 13 de janeiro como o Dia dos Defensores da Liberdade, com homenagens e a tradicional corrida comemorativa, símbolo de memória e do compromisso coletivo com a liberdade.
A flor myosotis, ou não-me-esqueças (em lituano neužmirštuõlė), se tornou um símbolo do compromisso de nunca esquecer daqueles que lutaram pela liberdade da Lituânia.
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